"De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha
de ser honesto".

(Rui Barbosa)


segunda-feira, 4 de julho de 2011

A noite dos urubus

Os jogadores inveterados, os isotéricos e até os macumbeiros de plantão falam de maus e bons presságios quando se sonha com animais. “Se sonhar com alguém pulando de um lado para outro, joga no macaco, ou no gato, que é tiro e queda”, dizem.

Como não acredito nessas coisas, coloco o crédito na conta das casualidades. Não acredito que sonhar com urubus traga sorte ou azar. Para se ter ruma ideia, na noite de segunda para terça-feira andei sonhando com essa ave tida como de mau agouro. Era um monte deles, planando por entre os telhados, na copa das árvores, caminhando pela ruas, se esquivando dos veículos e transformando a cidade num tremendo hande voux. Era uma urubuzada sem fim.

O urubu, uma espécie de lixeiro do mundo, com a atribuição de limpar o ambiente de carniças é uma ave sem nenhum prestígio. No seu caminhar desengonçado, vestido de preto, o urubu nem pode ser considerada uma ave de rapina, pois se alimenta dos restos mortais de outros animais. Como diria o caboclo, o urubu é responsável pelo serviço sujo do mundo. A grosso modo, se diria que ele faz um serviço que a hiena também faz nas savanas.

O urubu é tão detestável que até no futebol a coisa rende. Os vascaínos chamavam os flamenguistas de urubus e tinha até morte. De repente o próprio Flamengo viu nos xingamentos do rival, o símbolo do clube. Hoje a “urubuzada” faz o agito nos jogos do Flamengo.

Não sou muito de lembrar dos meus sonhos, mas, pelo inusitado, ele voltou à baila no dia seguinte e acabou tema de crônica.

Dizem os psicólogos que o sonho é apenas o acumulo de informações no nosso subconsciente. Se isso for verdade, aí a coisa fica mais sem pé, nem cabeça; nas últimas décadas nunca dispensei uma minuto sequer do meu tempo para conjecturar sobre esse assunto, até porque o bicho é por demais asqueroso.

Antes que algum apressadinho veja qualquer ranço de uma possível metáfora, na qual personagens da nossa inefável administração fossem a representação do mal, ou da urubuzada, quero dizer que isso não me passou pela cabeça. Tudo bem que a trupe instalada no Morro dos Ventos não é fraca, não, faz coisas do arco da velha e se apraz em chafurdar em coisas putrefatas, entretanto, se houvesse a intenção de se fazer uma analogia, pensaria numa ave de rapina, o que não é o caso.


(artigo publicado no jornal HOJE 0 Coluna do Marcel)

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