"De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha
de ser honesto".

(Rui Barbosa)


quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A teoria da terra arrasada

Por Leo Mendes
Dizem que, em se tratando de política, há momentos em que qualquer ação é melhor do a inércia e que a paralisia é fatal; e, especialmente em momentos de disputa, vácuos políticos e vazios de poder podem botar a perder projetos, sonhos e esperanças, individuais ou coletivos.
Partindo-se dessa premissa, era de se imaginar que o PT (Partido dos Trabalhadores) de Parauapebas, principalmente depois dos desfavoráveis resultados eleitorais que obteve, tanto no Estado, como em nosso município, encabeçado aqui pelo Governo Cidadão, deflagrasse, ainda que minimamente, alguma reação visível e factível, ante tão memorável derrota.
Se não capaz de reversão dos desastrosos resultados, pois que impossível o é, talvez premonitórios de novas adversidades. Ou, no mínimo, alguma forma de autocrítica coletiva, como era comum à esquerda política brasileira, noutros tempos não menos adversos.
Creio eu, ainda que sem a devida fundamentação histórico-científica, que esta prática, no caso, a autocrítica, como pressuposto básico para a correção de práticas políticas e administrativas, bem como para revisão das concepções ideológicas, foi inaugurada, na esquerda política, em nível mundial, à época da ascensão de Nikita Kruschev ao governo da extinta União Soviética, entre as décadas de 1950 e 60.
Parece-me, que em ocasião do XX Congresso do PCUS (Partido Comunista da União Soviética), em 1956, com fim de “expurgar”, ao menos em tese, os resquícios do chamado “período stalinista” (1927-53), época em a ex-URSS sofreu as mazelas de um governo autoritário, personalista e extremamente violento.
Houve mesmo quem denominasse o Governo Stálin de “totalitarismo de esquerda”: isto é, uma versão “esquerdo-socialista” do nazifascismo ítalo-alemão dos anos de 1920 e 1930, tendo, com este, muitas semelhanças, inclusive, um nacionalismo militarista e exacerbado, que tentava se justificar pelo ambiente belicista que marcou a primeira metade do século XX.
Como hoje sabemos, a tal “autocrítica de Kruschev” foi de pouca valia: não só o próprio foi derrubado do poder soviético, em 1964, por um golpe político militar desfechado pelo exercito soviético, garantindo a sobrevivência das stalinistas, como, por conta disso, embora não só, a própria URSS, entrou em colapso e desapareceu, nas passagens dos anos 80 e 90.
O próprio PT, em nível nacional, tem/tinha esta prática, especialmente, nos momentos que posteriores a derrotas eleitorais, como em 1989 (para Collor), 1994 e 1998 (ambas, para FHC). Aliás, memorável foi, com marcas profundas na história do partido, o II Congresso do PT (Belo Horizonte: 1999), verdadeira reviravolta de teses, práticas e posições!
Foi neste congresso que as bases político-ideológicas que firmaram o projeto petista de ascensão ao poder, em nível federal, a partir de mudanças em sua política de alianças (abrindo-se, ao centro-direita) e em seu “discurso social” (voltando-se para as classes médias, até hoje recalcitrantes em relação ao petismo).
Deu resultado, como se pode constatar, quando lembramos as vitoriosas campanhas de 2002 e 2006, com Lula (contra José Serra e Geraldo Alckmin, respectivamente) e, agora, em 2010, com Dilma Rousseff, consolidação do projeto petista de governo e hegemonia política, mesmo se considerarmos alguns reveses.
Pois é! Era de se esperar que a derrota na tentativa reeleitoral da governadora Ana Júlia, fortemente influenciada pelos péssimos índices de avaliação (e talvez por conta disso, embora não só por isso) da administração petista, em nosso município, fizesse o partido socorrer-se das lições históricas acima assinaladas.
Era de se imaginar que, em tão grave momento, com reflexos diretos e, até agora ainda imensuráveis para a imagem do partido, e para seu futuro, em nossa cidade, suas lideranças e seus filiados, aquelas mais que estes, tentassem uma autocrítica interna (das praticas partidárias) e externa (do Governo Cidadão).
Desta, partissem à correção de rumos, pelas mesmas vias (interna e externa), buscando um mínimo de unidade partidária e, como conseqüência, uma maior e mais qualificada intervenção no governo municipal, que, ao menos em tese, encabeça, incluindo-se, inclusive, uma reestruturação das relações com a população e com os aliados.
Se não em vista da derrota passada, posto já mesmo pretérita, pelo menos em busca de vitórias futuras, principalmente do futuro próximo que, nesse caso, são as eleições municipais de 2012, para as quais, os mais pessimistas já prevêem antecipado (novo) desastre eleitoral. Talvez pior.
Mas, pasmemo-nos nós, não é isso que vemos! Contrariamente ao famoso ditado que diz que derrotas não possuem “dono(s)”, apenas as vitórias o(s) têm, os petistas de Parauapebas, de todas as matizes, mantêm-se em intestina disputa interna, agora, talvez, a reivindicar os espólios da derrota.É o que muitos denominam de “teoria da terra arrasada”.
Explicando melhor: sabedores ou, pelo menos, crentes da inevitabilidade de novo revés eleitoral em 2012, cada liderança, cada facção agarra-se ao seu quinhão de poder para dele retirar o máximo e o quanto pode; enquanto pode! E o trocadilho é intencional.E, nesta luta de todos contra todos, nesta espécie de salve-se quem puder em que vem se digladiando o petismo parauapebense, o mais provável é que, da próxima derrota, se ela advier, não sobre nada pra ninguém. Só a autocrítica!

Um comentário:

Naélia disse...

No movimento que está no meu sangue, o qual me influenciou desde criança, aprendemos o quanto a autocrítica é fundamental para fortalecer qualquer grupo, pois é através dessa prática que as "roupas são lavadas", propicia desabafos e insatisfações e aprendemos a crescer juntos. Se o Partido dos Trabalhadores não fizer este momento, será colocado em xeque mais uma vez, e aí então sentiremos a dor e a delícia da efemeridade do poder.